Ponte D. Zameiro

A Ponte D. Zameiro, também designada por Ponte d’Ave, foi durante muitos séculos a única ponte sobre o Rio Ave que ligava as freguesias de Bagunte e de Macieira da Maia até à construção de uma nova a jusante já na segunda metade do século XX.

Alguns autores avançam a hipótese de, nesse mesmo local, ter existido outra ponte construída no período romano. Contudo, restam-nos apenas vestígios da (re)construção feita por volta do século XII. Estaria em edificação na altura em que o bispo do Porto D. Fernando Martins, que morre em 1185, fez o seu testamento, redigido em latim como era costume nesta época. Este fez legados a várias pontes, entre elas à “de domna Guntina” e à “de domno Cemario”. Assume-se que a primeira será a ponte da Lagoncinha sobre o Ave, no lugar da Garrida, na freguesia de Lousado (concelho de Vila Nova de Famalicão) e a segunda será a Ponte D. Zameiro.

Nas Inquirições de D. Afonso II de 1220 e nas de D. Afonso III de 1258, é referida como ponte “de Zameiro” ou “de domno Zameiro”. Por estas fontes tomamos conhecimento que o rei D. Afonso II (reinado de 1211 a 1223) confirmou, por carta, a doação de dois casais que D. Afonso Henriques (reinado de 1143 a 1185) e, depois, D. Sancho I (reinado de 1185 a 1211) haviam feito à ponte, certamente para que os rendimentos dessas propriedades contribuíssem para a sua construção. Na realidade, segundo Carlos A. Ferreira de Almeida, o financiamento de pontes e caminhos era uma prática muito comum entre o século XII e o XIV, tinha um valor religioso, sendo considerada uma obra de piedade. Não há certezas sobre quem terá sido D. Zameiro (ou D. Sameiro, como sugere José Ferreira), mas, para o seu nome ser associado à ponte, seguramente foi um dos seus mais importantes impulsionares e patrocinadores.

Esta ponte românica possui um tabuleiro irregular ligeiramente rampante, assente em oito arcos de volta perfeita com dimensões desiguais, existindo entre eles, a Este, talhamares de perfil triangular e, a Oeste, talhantes quadrangulares que servem para desviar o curso da água e diminuir a sua pressão sobre a estrutura da ponte. Ao longo dos tempos, realizaram-se diversas intervenções de restauro para evitar a sua ruína. Aquelas que foram efetuadas em 2003 tiveram um caráter mais radical e acabaram por a revestir de uma capa de modernidade. Todavia, crê-se que, pelo menos, o primeiro arco da margem direita ainda seja do românico original.

A 12 de novembro de 1996 a Direção Regional do Porto apresentou uma proposta de classificação da ponte e das azenhas, dando o vice-presidente do IPPAR despacho para a abertura do processo no dia seguinte. O procedimento acabou por caducar no final de 2012, não tendo sido conferido qualquer tipo de proteção legal a este conjunto patrimonial. Em 2016, foi elaborada uma proposta de classificação do complexo molinológico da Ponte d’Ave – que inclui, entre outros equipamentos, o açude, as azenhas e a ponte D. Zameiro – como património de interesse público municipal (veja-se a proposta de Bruno Matos e de Francisco Barata citada na bibliografia).

Esta ponte teve um papel muito importante durante séculos na região, tendo integrado dois caminhos antigos. Um foi a chamada Via Vetera, que nos é descrita em pormenor nas Inquirições de D. Afonso III, em 1258, e que já vinha do tempo dos romanos. O outro foi a Karraria Antiqua, assim designada em documentos do século X e que alguns autores, como Eugénio da Cunha Freitas, sugerem ter também origens no período romano. Estas duas estradas velhas, vindas do Porto, teriam partes do seu trajeto que eram comuns, nomeadamente na passagem por Bagunte, pela Ponte D. Zameiro, seguindo para Casal Pedro. Faltam, no entanto, dados arqueológicos que nos permitam estabelecer com certeza todos os seus troços. Teremos, no entanto, a oportunidade de voltar a esta temática em publicações futuras.

Regressemos à Ponte d’Ave. Esta passou igualmente a fazer parte de um dos itinerários de romagem a Santiago de Compostela. A partir do século IX, esta peregrinação consolidou-se e difundiu-se por toda a Europa Ocidental. No nosso país, o Porto assumiu um papel de relevo, sobretudo a partir do século XIII, sendo local de passagem para quem viesse do Sul para o Norte. O peregrino, chegando àquela cidade, poderia seguir vários caminhos e um deles era o que passava pela ponte D. Zameiro.

Esta vetusta ponte evoca uma história de séculos de ocupação das margens do Ave e guarda memórias da mobilidade de bens e de pessoas, nomeadamente de peregrinos. Além do mais, está rodeada por uma bucólica e repousante paisagem que convida, sem dúvida, à visita e à contemplação.

 

Para mais informações, pode consultar a bibliografia e webgrafia citada no final, na qual nos baseamos para a elaboração do presente texto.

  

  

Legendas fotos (tiradas por Marisa Ferreira):

1- Ponte D. Zameiro, vista dos talhantes quadrangulares a jusante, 2021.

2 - Ponte D. Zameiro, vista dos talhamares de perfil triangular a montante, de uma parte do tabuleiro da ponte e da paisagem na margem direita, 2021.

3 - Ponte D. Zameiro, vista a jusante, e paisagem na margem direita, 2021.

4 - Ponte D. Zameiro e paisagem a jusante, nomeadamente de uma parte da Azenha do Rio, 2021.

 

Bibliografia e webgrafia:

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CÂMARA MUNICIPAL DE VILA DO CONDE – Conhece mesmo Vila do Conde? Boletim Municipal de Vila do Conde, n.º 61 (2006) p. 8.

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DACIANO, Bertino; FREITAS, Eugénio de Andrea da Cunha e – Subsídios para uma Monografia de Vila do Conde. Porto: Junta de Província do Douro Litoral, 1953. Vol. 1.

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FERNANDES, Paulo Almeida – Uma estrada para um caminho: a karraria antiqua nos itinerários jacobeus portugueses. Ad Limina, vol. 11, n.º 11 (2020) p. 29-60.

FERREIRA, José – “Notas sobre Bagunte Medieval”, s.d. Texto dactilografado. Acessível no Fundo Local do Gabinete Municipal de Arqueologia de Vila do Conde.

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FERREIRA, Pedro Ricardo Gonçalves – Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave. Porto: FAUP, 2016. Dissertação de mestrado em Arquitetura.

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[FURTADO, José] – Ponte D. Zameiro. Raízes. Boletim informativo da União de freguesias de Bagunte, Ferreiró, Outeiro e Parada, n.º 4 (2017) p. 6.

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NEVES, Joaquim Pacheco – Vila do Conde. 2.ª ed. Vila do Conde: Câmara Municipal de Vila do Conde, 1991.

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VIEIRA, José Augusto – O Minho Pittoresco. Valença: Rotary Club de Valença, 1887. Tomo II.

 

Referências documentais:

Arquivo Distrital do Porto, Cabido da Sé do Porto, n.º 1656 (Censual do Cabido da Sé do Porto, cartulário em que está copiado o testamento do bispo D. Fernando Martins nos fólios 102r a 103r; a referência à ponte “de domno Cemario” está no fólio 103r). Uma digitalização deste livro está disponível em linha na base de dados do Arquivo Distrital do Porto https://pesquisa.adporto.arquivos.pt/viewer?id=482933. Este testamento foi transcrito e publicado em MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa (coord.) – Testamenta Ecclesiae portugaliae (1071-1325). Lisboa: CEHR-UCP, 2010, p. 523-527.

Portvgaliae monvmenta historica: a saeculo octavo post Christum usque ad quintumdecimum: Inquisitiones. Lisboa: Typis Academicis, 1888. vol. I, fasc. I e II, p. 31. (Inquirições de Afonso II de 1220.) A sua digitalização está disponível na Biblioteca Digital da Biblioteca Nacional de Portugal: https://purl.pt/12270/4/res-1800-a/res-1800-a_item4/res-1800-a_PDF/res-1800-a_PDF_24-C-R0150/res-1800-a_0000_capa-capa_t24-C-R0150.pdf.

Portvgaliae monvmenta historica: a saeculo octavo post Christum usque ad quintumdecimum: Inquisitiones. Lisboa: Tipografia Nacional, 1977. vol. I, pt. II, fasc. IX, p. 1420. (Inquirições de Afonso III de 1258, Quinta Alçada, Julgado de Faria.) A sua digitalização está disponível na Biblioteca Digital da Biblioteca Nacional de Portugal: https://purl.pt/12270/4/cg-2698-a-7/cg-2698-a-7_item4/cg-2698-a-7_PDF/cg-2698-a-7_PDF_24-C-R0150/cg-2698-a-7_0000_capa-capa_t24-C-R0150.pdf.

Texto: Filipa Lopes
Imagens: Marisa Ferreira

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